WELCOME TO THE ANTROPOCENO
Exposición 
Comisariada por José-Abel Flores 
Presentación texto: Joao Castro Silva
Museo de Salamanca
Salamanca
2019
Mikhaez
Gloria Lcleries
Sive Hamilton
Judith Borobio
Instalación Site Specific, Frottage, Archivo Sonoro.

1/10

La comunidad científica entiende el Antropoceno como aquel intervalo de tiempo en el que las condiciones y procesos en la Tierra han sido profundamente alterados por el impacto de los humanos; una fracción minúscula, exigua, de historia geológica, un suspiro en la trayectoria de casi doscientos milenios de un ser que se irguió sobre congéneres próximos y dilató su cerebro, erigiendo y mejorando habilidades insólitas. El lenguaje y una organización social sofisticada que ha ido dejando su huella como cualquier otro organismo en esa memoria que son los sedimentos, generando fósiles propios, trazas particulares que en algún instante del futuro podrán identificarse, como ya se identifican en el presente.

 

Sedimentos que han de encerrar la propia cultura, el sesgo de una humanidad que se ha ido inventando y que se materializa en signos físicos e indicadores químicos y biológicos, añadidos a los fangos que van cubriendo su propio tiempo, compitiendo con corales, microorganismos mineralizados, moluscos, pólenes o estructuras sedimentarias, que hasta el momento eran los actores de esa historia, utilizados para recrear climas, ambiente y paisajes por paleontólogos y estratígrafos. Ambientes que se han ido modelando al albur de los caprichos orbitales o solares, en ocasiones alterados por la súbita colisión de un meteorito o la erupción de un volcán venerado por aborígenes y acaso colonizado por turistas. Escenarios que ha modelado la interferencia de la sociedad implantada por esos seres que, exponencialmente, han ido ocupando el Planeta y que, ahora sin ningún género de dudas, alteran y añaden una impronta inesperada, indisciplinada, que genera nuevas visiones de un nicho robado.

 

Bienvenidos a un futuro incierto que, categóricamente, se puede explicar en el pasado enterrado.

Welcome to the Antropoceno.

José-Abel Flores

Para os gregos antigos Physis indica aquilo que brota por si, se abre, desponta, aquilo que desabrocha, que surge de si próprio e se manifesta, tornando-se explícito. Physis é um conceito que nada tem de estático, que se caracteriza por uma dinâmica profunda, genética e intrínseca.

 

“A physis compreende a totalidade de tudo o que é. Ela pode ser apreendida em tudo o que acontece: na aurora, no crescimento das plantas, na nascimento de animais e homens. E aqui convém chamar a atenção para um desvio em que facilmente incorre o homem contemporâneo. Posto que a nossa compreensão do conceito de natureza é muito mais estreita e pobre que a grega, o perigo consiste em julgar a physis como se os pré-socráticos a compreendessem a partir daquilo que nós hoje entendemos por natureza; neste sentido, se comprometeria o primevo pensamento grego com uma espécie de naturalismo.”1 Ser e Parecer. As diferenças são grandes, o primeiro fala-nos de verdade, de se apresentar como realidade, acontecer, ocorrer, manifestar; o segundo de aparição, simulacro, de ter a aparência de, de ser parecido com. Ser é tudo o que é, tudo aquilo que se coloca como existente, que existe ou que tem a possibilidade de existir. Parecer é tudo aquilo que se assemelha a, aparenta, dá a ideia de, mas não é.

 

Enquanto totalidade, conjunto de diversas partes na formação de um todo, a Physis integra como sistema uma dimensão completa, universal e unívoca de uma condição. Tudo se integra e existe em equilíbrio, em harmonia e na justa proporção: Corpo e Alma ou Físico e Psíquico. Tudo É e Está, nada Parece.

 

1 BORNHEIM, Gerd A. (org), Os filósofos pré-socráticos, (São Paulo: Cultrix, 1999), 13-14. “(…)

 

É difícil dizer o momento preciso em que a totalidade se quebra e em que o pensamento grego deixa de crer que o ser está na physis. A distinção entre a aparência principia em Parménides. Mas é em Sócrates - Platão que a ruptura é evidente. O olhar que vê o fenómeno perde a sua simplicidade primeira. A aparência passa a ser pensada como ilusão. A verdade deixa de estar no “aparecer” e passa a estar na ideia. Para o homem arcaico o divino sussurrava no universo. Quando ele invoca o céu, o mar e a luz invocava o divino, invocava o verdadeiro e real, a plenitude do ser, invocava uma verdade viva e tutelar. O homem arcaico, tal como o vemos nos Kouroi e nas Kourai, é o homem que confia. (…) no seu corpo lemos a confiança do homem na sua própria natureza e na natureza do mundo em que está. Um homem que crê habitar o divino. Depois essa confiança é quebrada e tudo se divide.”2

 

E é a partir daqui que começará, provavelmente, verdadeiramente, a era do Antropoceno. Não mais um sentido de equilíbrio e harmonia em que o todo está em relação com as partes - o nosso ser e estar no mundo - mas uma fragmentação completa de conteúdos, agora tomados independentemente e fora do encadeamento metodológico que lhes dá significação. Os elementos, outrora unos, agora dispersos são absorvidos individualmente como globalidade emagrecendo-lhes o conteúdo que é inerente a esse processo de criação pulverizado.

 

Contestam-se origens, princípios, modelos e metodologias de trabalho. Desconstroem-se os fundamentos clássicos, autonomiza-se e inventam-se formas. Experimenta-se ávida, consciente e analiticamente: relativizar, descontextualizar, socializar, democratizar, sacralizar. Assume-se um corte com o passado e uma ruptura com anteriores convenções. A partir deste princípio de “geração espontânea”, de ponto zero de onde tudo nasce, procura-se sofregamente a renovação e a ruptura, o novo e o experimental, a possibilidade e a potencialidade.

 

A transformação surge pela negação de toda a ideia de tradição. A noção de Deus, ou Deuses, anulase e com ela a relação com o divino e o transcendente que relativizava a nossa importância no Mundo. A Physis deixa de existir, o Homem posiciona-se como medida e no centro de todas as coisas e o que fica é a crença no indivíduo. A dimensão espacial ganha relevância porque através dela pode pôr-se em causa a percepção que o Homem tem de si e daquilo que o rodeia. O conceito de espaço porque, acima de tudo, pode ser racionalmente construído, definindo.

 

2 ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, O Nu na Antiguidade Clássica, (Lisboa: Caminho, 1992), 122.

 

uma outra percepção do próprio Homem e da sua relação com o Mundo e com a transcendência.

 

“O Mundo perdeu a sua dimensão humana. Entre o caos provocado pela tecnocracia, aliada inalienável do sistema financeiro, o Homem retornou ao seu estado mais primitivo, a barbárie instalou-se. A Humanidade transformou-se em joguete de interesses económicos não identificáveis. Aquilo que comodamente se intitula de os mercados não tem rosto, não é reconhecível, mas existe e define, ou quer definir, o modo como vivemos as nossas vidas. Sempre em função de metas objectivas e com a finalidade absoluta do lucro.”3

 

Hoje, porque o impacto negativo da actividade humana se torna notório na Terra e na possível sobrevivência da diversidade dos seus ecossistemas, o tempo urge e é cada vez mais importante conseguir reverter esta escalada. Fora do paradigma civilizacional agora instituído, princípios éticos e humanistas são essenciais para um re-nascer do sentido de Physis, do nosso ser e estar no Planeta.

 

Neste mundo egóico e materialista a possível reconciliação poderá fazer-se, também, por via da Arte porque ela ainda mantém a capacidade de associar com harmonia o Corpo e a Alma ou o Físico e o Psíquico, encontrar a aliança entre a permanência e o acontecer, que entretanto se perdeu.

 

3 SILVA, João Castro, “O Estado da Questão”, GAB-A, 22-26, (Lisboa: FBAUL e CIEBA, 2019)

 

PHYSIS. JOAO CASTRO SILVA